Da Genética de Alta Performance à Estratégia de Mercado

Nas rodas de negócios dos ambientes de startups e grandes empresas o termo Benchmark é bem comum. Ele se refere ao comparativo de algum indicador, como rentabilidade, crescimento das vendas, etc. Na avicultura também fazemos, às vezes sem saber. Quando comparamos, por exemplo, a taxa de postura de uma “poedeira negra” com nossas aves, estamos usando um benchmark.

O Benchmark da Alta Performance: A Fisiologia da Eficiência Alimentar

O conceito de energia de mantença: Muitos criadores usam como o benchmark apenas a taxa de postura, dessa forma, se um determinado lote, está com uma postura média de 75%, consideramos alto e portanto está tudo certo. Negativo.

O maior custo de uma produção de aves é a alimentação. Todos nós sabemos, aceitamos que entre 60 a 70% do custo é com comida, mesmo sem saber se está correto. Afinal, é sim o custo mais alto.

Como o baixo peso corporal de linhagens como a Leghorn maximiza o direcionamento de nutrientes para o ovo, reduzindo o custo fixo de trato por ave. Não é à toa que os ovos brancos são mais baratos, as galinhas, além de botar mais, comem menos, portanto, o custo de ração por ovo é menor.

Em aves de corte, o peso corporal é maior, logo, as galinhas precisam de mais comida para se manter e nem por isso vão botar mais. As galinhas mais pesadas são menos eficientes, geralmente botam menos pois foram selecionadas (quando foram) para crescer, e você que nos acompanha sabe que há uma relação inversamente proporcional, quanto mais corte menos ovos e vice versa.

Dessa forma, é de se esperar menos ovos, e mesmo que a postura seja boa, com a mais absoluta certeza, essa galinha precisa de mais alimento para botar, encarecendo o custo de produção por ovo produzido.

A “limpeza” comportamental e genética: O consumo alimentar é de fato o mais relevante, o impacto é de gramas de ração por ovo. Assim, uma aves que consome 120g/dia e bota 5 ovos por semana, tem um custo de 168g/ração/dia. Outra ave que consome os mesmos 120g/ração/dia, mas que bota 4 ovos por semana tem um custo de 210g/ração/dia. Um custo alimentar 25% superior.

Dessa forma, precisamos escolher aves que botam bem e sempre, pois a conta é feita durante os meses de postura. Aves que entram em choco acabam por ter um percentual de postura muito baixo. A importância da eliminação do instinto de choco (foco no papel de seleções genéticas e genes inibidores) para a manutenção de um fluxo contínuo de caixa na granja. Aves que não entram em choco botam mais, a parte da ração é destinada à produção é maior, portanto o custo do ovo é menor.

A Fisiologia e o Mistério por Trás da Cor da Casca dos Ovos

Eficiência metabólica da casca branca: Em se tratando de produção e lucro, cada grama de proteína economizada é aumento do lucro. A proteína é o nutriente mais caro das rações, isso porque os aminoácidos presentes na proteína devem ser nobres. O pigmento, seja marrom ou verde/azul é produzido via proteína, logo cascas brancas exigem menos proteína para ser produzidas que cascas coloridas. Além disso, a ausência de deposição de pigmentos no útero poupa energia da ave e isso se traduz em velocidade de postura.

A grande contrapartida disso tudo é que ovos coloridos tem mais valor comercial, todos nós sabemos que o cliente compra com os olhos. Crenças embutidas também ajudam. Muitos pensam que ovos vermelhos são mais saudáveis ou que verdes e azuis são mais característicos de aves de roça. 

Seja qual for o motivo, uma cartela de ovos coloridos vale mais, e portanto, justifica o investimento em melhores fontes de proteína para nossas aves.

Desafios de Manejo e a “Armadilha da Nutrição Média” em Lotes Mistos

Essa busca por ovos coloridos geralmente nos leva a uma armadilha: Ter lotes mistos no mesmo galpão significa ter galinhas de diferentes linhagens, que por sua vez têm diferentes necessidades nutricionais em diferentes idades.

Diferenciação por consumo: A armadilha é: Se eu oferto uma ração – qualidade e quantidade – para a linhagem mais produtiva, os ovos das linhagens menos produtivas ficarão muito mais caros, o excesso de ração levará ao ganho de peso e consequente redução da postura, encarecendo ainda mais os ovos produzidos.

Se eu oferecer a ração com foco nas linhagens menos produtivas, as aves com maior necessidade nutricional irão entrar em déficit negativo, ou de proteína/aminoácidos ou de energia, ou de ambos, que também vai impactar na qualidade de postura. Termos ovos menores e menos ovos.

Se minha estratégia for atender a média, eu prejudico todas as linhagens. A saída, infelizmente, é ter lotes separados. Ou uma linhagens que tem ovos coloridos.

Competição de cocho e hierarquia social: Outro cuidado é aumentar a quantidade de comedouros. Aves de linhagens diferentes, possui comportamentos diferentes, dessa forma, as aves mais agressivas irão comer mais, engordando e retirando a parte necessária para as aves menos agressivas.

Para essa característica isoladamente, o aumento do número de comedouros é suficiente.

Sincronia Sanitária, Ambiência e Competição por Recursos

Vulnerabilidade imunológica assimétrica: A direção de um melhoramento genético geralmente é linear. A quantidade quase ilimitada de genes faz com que os programas de melhoramento genético foquem em um número reduzido e administrável de genes, deixando outras características para o segundo plano.

Se a seleção foca em postura, a escolha de uma ave mais produtiva e menos resistente é natural. A consequência disso é que as aves mais produtivas terão uma resistência geral à doenças menores que aves menos produtivas. E menor será essa resistência o quanto menor for o risco de campo.

Vamos considerar um sistema de criação caipira sem seleção clara, a galinha bota no mato, choca seus pintinhos e aqueles animais que não forem para a panela serão as matrizes e reprodutores do ano seguinte. Aquele pintinho que não tinha resistência à parasitas morreu. O outro, que era mais frágil para o botulismo, morreu. E por aí vai. Os reprodutores são sempre os mais fortes e mais resistentes.

É natural que, em um sistema controlado, esses animais menos resistentes, que não irão morrer pois é fornecido controle ambiental e medicamentos e vacinas, possam apresentar um desempenho superior e serem selecionados para virem a ser os reprodutores.

Gargalos de galpão: A oferta de mais comedouros para um lote misto reduz a competição e consequentemente o estresse devido a brigas. Da mesma forma, ter mais ninhos reduz a competição por ninho, reduz a quebra de ovos e a quantidade de ovos posto no chão. Além do mais, esse estresse libera cortisol, levando a menor taxa de postura e redução da qualidade dos ovos.

O Impacto Silencioso da Logística Nacional na Avicultura

O custo invisível do frete rodoviário e aéreo: A busca por ovos de diversas nuances, alta produtividade e desempenho alimentar significa trazer aves de outras partes do Brasil. O país é enorme e as distâncias são geralmente percorridas por caminhões, o mais lento e mais turbulento dos transportes. Trens e aviões são melhores e mais rápidos, mas nossa linha férrea é insignificante e o transporte aéreo proibitivo.

O desempenho daquela pintinha é reduzido conforme o tempo que demora da eclosão até a acomodação no galpão, o ideal é que em 12h os recém nascidos recebam água e alimento, potencializando sua capacidade produtiva. Até 24h o vitelo – a gema do ovo – ainda fornece alimento para o pintinho. O vitelo é suficiente para ‘segurar’ o pintinho por até 72h, entretanto, o preço é alto e essa ave perde capacidade produtiva que pode significar um menor desempenho para o resto da vida. É preciso avaliar se trazer os pintinhos de incubatórios a mais 500km compensa, e na avaliação, é obrigatório entender se o entregador vai direto do incubatório para sua granja ou se a entrega é fracionada em inúmeras paradas que só atrasam a chegada dos pintinhos.

Tomada de Decisão Estratégica: Produção Própria vs. Escala Industrial

A balança do investimento: A avaliação da compra deve considerar a produção de animais na própria propriedade. É óbvio que não teremos a mesma produtividade que se espera da genética dos grandes incubatórios, e não se trata dessa comparação.

Comprar animais de granjas/incubatórios grandes significa – ou se espera – ter animais com potencial genético superior. Mas o potencial genético não significa produtividade superior.

Dependência da compra, redução da capacidade produtiva dos animais, impactos da adaptação ao novo ambiente e os desafios desse ambiente, como vírus, bactérias e parasitas. São pontos relevantes e que devem ser cuidadosamente considerados na ocasião da compra.

Do outro lado, a produção própria culmina na aquisição de incubadoras, custo com manutenção de lotes de matrizes e seleção dessas aves, além do risco de baixa eficiência produtiva e reprodutiva. Ganha-se em adaptação, e um novo nicho de mercado, podendo comercializar os pintinhos adicionais para os vizinhos.

Alinhamento ao mercado local: Animais produzidos localmente tendem a atender melhor os consumidores. Minhas primeiras galinhas eram cruzamentos de raças puras com linhas de índio gigante. Me recordo da dificuldade em comercializar os ovos castanhos mais escuros, por parecerem de galinhas de granja.

A decisão de desenvolver uma linhagem própria deve considerar a disponibilidade e a qualidade genética dos animais na região, a necessidade de aquisição de aves externas, os riscos sanitários e os desafios de integrar diferentes lotes, além da dificuldade de formular uma alimentação realmente adequada para todas as linhagens envolvidas.

Os fatores envolvidos vão além da genética e incluem aspectos nutricionais, sanitários e mercadológicos. A Chácara Dornas acredita que tanto a seleção própria quanto a aquisição de aves prontas podem ser estratégias viáveis, desde que alinhadas à realidade e aos objetivos de cada criador. Nosso objetivo é oferecer informações práticas e confiáveis para apoiar decisões mais conscientes e aumentar as chances de bons resultados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *